A Pública viajou ao país para entender como nossos vizinhos veem a prospecção de petróleo na sua fronteira
Exploração de petróleo na Foz do Amazonas preocupa habitantes da Guiana Francesa (Foto: Rudja Santos/Agência Pública)

Em caso de acidente, impactos no país vizinho seriam sentidos em até 48h, afetando sua biodiversidade e economia (Foto: Reprodução G. Feuillet/Reserva L’ Amana)
Sylvain Kilinian receia impacto socioambiental de possível vazamento de óleo na região (Foto: Rudja Santos/Agência Pública)
Pescadores reclamam da falta de informações
Departamento ultramarino pertencente à França, a Guiana Francesa passou por várias ondas de prospecção de petróleo desde a década de 1970. Em 2017, a França aprovou a Lei 2017-1839, que determinou o fim da pesquisa e exploração de hidrocarbonetos, proibindo novos contratos de exploração de gás e petróleo, e o encerramento de toda e qualquer atividade do setor no país e seus territórios até 2040. Protegidos pela legislação de derramamentos de óleo em seu país, os pescadores da Guiana Francesa – que representam o terceiro setor econômico local –, reclamam da pouca informação sobre o projeto na Foz do Amazonas. “Já temos uma poluição com o mercúrio dos garimpos e agora mais esse risco de maré negra. Isso traz preocupação. Não há informação suficiente para perfurar poços de exploração na costa do Brasil com segurança, e isso com certeza vai afetar nossas populações indígenas, dos dois lados. Muitas pessoas dependem da pesca para sobreviver”, diz o engenheiro Steafne Icho, morador de Saint Laurent du Maroni e filho e neto de pescadores. Há 70 km de Oiapoque, já na Guiana Francesa, fica o vilarejo de Kaw, uma antiga aldeia localizada na cidade de Regina. A principal atividade dos habitantes é a pesca e a caça. Lá fica a reserva natural Kaw Roura, a terceira maior em área (94.700 hectares) e a maior zona úmida da França. Cristian Lewest, pescador da região, conta que ele e a esposa pescam para subsistência e comércio. Ele explica que a prática pesqueira é passada de geração a geração. “Aprendi com meus pais e já estou ensinando meus filhos, então um derramamento de óleo seria catastrófico para nós”, lamenta o pescador. Mas não são apenas os pescadores que reclamam da falta de informações. Em entrevista à Pública, o secretário de Estado encarregado do mar na França, Hervé Berville, que visitou Awala-Yalimapo em abril, afirmou que, do lado francês, não há muitas informações a respeito da possível exploração de petróleo na costa vizinha. Segundo ele, o diálogo com o governo Bolsonaro sobre questões ambientais sempre foi bastante complicado e a relação Brasil-França vem sendo retomada agora com o presidente Lula.
Segundo o secretário de Estado Hervé Berville, falta informações sobre a exploração de petróleo na costa (Rudja Santos/Agência Pública)
Petrobras reservou hotéis inteiros em Oiapoque até o fim de 2023
A busca pelo petróleo no FZA-M-59 é questionada há anos por ambientalistas e órgãos de defesa ambiental. A decisão da Petrobras de tentar explorar a região levou a um embate político, opondo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e a ministra Marina Silva. Deputados, senadores e autoridades do Amapá exigem a autorização para a exploração. Enquanto aguarda parecer do Ibama, a Petrobras já reservou hotéis inteiros até pelo menos o final de 2023 no município de Oiapoque, na divisa do Amapá com a Guiana Francesa. A empresa também trabalha na adaptação do aeródromo da cidade, por meio de convênio com a prefeitura, a fim de auxiliar nas operações de exploração de petróleo no litoral do estado. Procurado pela Pública, o prefeito Bruno Almeida não se pronunciou sobre o convênio. Em 2022, ano em que a estatal anunciou adaptações no aeródromo do município, o Ministério Público Federal (MPF) no Amapá e Pará alertou para a o fato de que os povos Karipuna, Palikur-Arukwayene, Galibi Marworno e Galibi Kali’na serão diretamente afetados com um possível aumento de até 3.000% no tráfego aéreo da região. Na época, a recomendação do MPF demonstrava preocupação com o potencial de danos ambientais na costa da Amazônia Atlântica que poderiam atingir até o mar da Guiana Francesa. Pesquisadora do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá (Iepa), Valdenira Ferreira coordenou o projeto Carta de Sensibilidade Ambiental a Derramamentos de Óleo (Cartas SAO), financiado pelo Ministério do Meio Ambiente entre 2011 e 2015, que permitiu identificar, através de cartografia e banco de dados, a sensibilidade ambiental ao derramamento de óleo no litoral brasileiro. “Sempre que pensamos em desastre com óleo, imaginamos plataforma, mas existe um perigo real e imediato que está relacionado a estarmos na porta de entrada da bacia hidrográfica amazônica, onde está a hidrovia Solimões e Amazonas, que se conecta na foz do rio Amazonas com o oceano Atlântico”, explica. Na quarta-feira (24), a Petrobras confirmou que pretende protocolar um novo pedido para que o Ibama reverta a decisão que barrou a exploração de petróleo na foz do rio Amazonas. No sábado (20), o presidente da estatal, Jean Paul Prates, afirmou que existe a possibilidade de “testar alguma coisa” na Guiana ou Suriname. A Petrobras não respondeu às diversas tentativas de contato da Pública.*Esta reportagem é resultado das Microbolsas Petróleo e Mudanças Climáticas realizada pela Agência Pública em parceria com a WWF-Brasil. A 16ª edição do concurso selecionou jornalistas para investigar os blocos de exploração na região amazônica e seus impactos socioambientais.
Reportagem originalmente publicada na Agência Pública0 visualizações
